Direito e Hierarquias Raciais: Conflitos, Permanências e Possibilidades de Transformação

Remição sem Remuneração: Racismo Institucional e Trabalho Prisional no Maranhão (2022-2025)

Autores

  • Diego Lima Cunha ORCID Universidade Federal do Maranhão
  • Luíz Eduardo Simões de Souza ORCID Universidade Federal do Maranhão
  • João Pedro Câmara Pereira ORCID Universidade Federal do Maranhão
Publicado: 2026-08-20 Edição: v. 1 n. 51 (2026) Páginas: e2026010

Downloads

Resumo

Este artigo examina a expansão do trabalho prisional no sistema penitenciário maranhense entre 2022 e 2025, inscrevendo-a no interior das hierarquias raciais que estruturam o sistema penal brasileiro e das tensões entre a promessa normativa da Lei de Execução Penal e sua aplicação concreta sobre corpos negros. Utilizando séries históricas do Sistema Nacional de Informações Penais (SISDEPEN), a pesquisa demonstra que, embora aproximadamente 73% dos homens privados de liberdade participassem de atividades laborais ao final do período, cerca de 94% dessas atividades eram realizadas no interior das unidades prisionais e dois terços dos trabalhadores não recebiam remuneração direta, em descumprimento sistemático do artigo 29 da Lei de Execução Penal (Lei nº 7.210/1984). A população atingida por esse padrão é composta majoritariamente por indivíduos pretos e pardos (≈85%), evidenciando que a seletividade racial do sistema penal não se encerra na criminalização, mas se prolonga e se aprofunda na execução da pena. Argumenta-se que o trabalho prisional maranhense opera como dispositivo racialmente orientado de gestão do cárcere: a dimensão jurídico-formal da remição se realiza com regularidade, enquanto a contrapartida econômica devida ao trabalhador negro permanece sistematicamente sonegada. O Direito, nesse arranjo, não é neutro, mas o campo em que as hierarquias raciais são ao mesmo tempo legitimadas e potencialmente contestadas.

Palavras-chave

trabalho prisional racismo institucional seletividade penal Lei de Execução Penal Maranhão

Declaração de Disponibilidade de Dados

Os dados que fundamentam os resultados deste estudo estão disponíveis publicamente no Sistema Nacional de Informações Penais (SISDEPEN), disponibilizado pelo Ministério da Justiça e Segurança Pública do Brasil. Todos os dados analisados neste estudo estão incluídos nos relatórios do SISDEPEN referenciados.

Biografia do Autor

  • Diego Lima Cunha, Universidade Federal do Maranhão

    Pesquisador do Grupo de Estudos em Economia Política e História Econômica (GEEPHE), sob a orientação do Prof. Dr. Luiz Eduardo Simões de Souza.

    • Luíz Eduardo Simões de Souza, Universidade Federal do Maranhão

      Possui graduação em História pela Universidade de São Paulo (1995), mestrado em História Econômica pela Universidade de São Paulo (2002) e doutorado em História Econômica pela Universidade de São Paulo (2008). Pós-Doutorado em Relações Internacionais pelo Instituto de Estudos Estratégicos (INEST) da Universidade Federal Fluminense (2018). Professor Associado da Universidade Federal do Maranhão. Docente nos Programas de Pós-Graduação em História e Desenvolvimento Socioeconômico (UFMA). Coordenador do Grupo de Estudos em Economia Política e História Econômica (GEEPHE) desde 2010. Tem experiência como docente e pesquisador nas áreas de História, Economia e Relações Internacionais.

      • João Pedro Câmara Pereira, Universidade Federal do Maranhão

        Economista formado no curso de Ciências Econômicas pela Universidade Federal do Maranhão (UFMA). Pesquisador do Grupo de Estudos em Economia Política e História Econômica (GEEPHE), sob a orientação do Prof. Dr. Luiz Eduardo Simões de Souza. Tem experiência no campo da História Econômica, com ênfase nas seguintes problemáticas: progresso, progresso técnico, desenvolvimento e instituições financeiras multilaterais. Possui interesse nas seguintes áreas: Economia Política Internacional (EPI), Teorias das Relações Internacionais, Teorias do Desenvolvimento, Macroeconomia e Mercado Financeiro. Atualmente, é mestrando do Programa de Pós-Graduação em Desenvolvimento Socioeconômico - PPGDSE da UFMA.

        Referências

        ABBOUD, G. C. R.; BORGES, P. C. C. Valor, forma-mercadoria e cárcere: a economia política do trabalho do preso no Brasil. Revista Contemporânea, v. 5, n. 9, p. 1-31, 2025.

        ALMEIDA, S. Racismo estrutural. 2. ed. São Paulo: Jandaíra, 2021.

        BATISTA, V. M. Difíceis ganhos fáceis: drogas e juventude pobre no Rio de Janeiro. Rio de Janeiro: Revan, 2003.

        BORGES, J. Encarceramento em massa. São Paulo: Pólen, 2019.

        BRASIL. Constituição da República Federativa do Brasil de 1988. Brasília, DF: Presidência da República, 1988.

        BRASIL. Lei nº 7.210, de 11 de julho de 1984. Institui a Lei de Execução Penal. Brasília, DF: Presidência da República, 1984.

        BRASIL. Lei nº 12.288, de 20 de julho de 2010. Institui o Estatuto da Igualdade Racial. Brasília, DF: Presidência da República, 2010.

        BRASIL. Lei nº 12.433, de 29 de junho de 2011. Altera a Lei de Execução Penal. Brasília, DF: Presidência da República, 2011.

        BRASIL. Supremo Tribunal Federal. Arguição de Descumprimento de Preceito Fundamental nº 347. Rel. Min. Marco Aurélio. Brasília, 2015.

        COSTA, J. S. A remição como instrumento de reintegração social na execução penal. Caderno de Graduação - Ciências Humanas e Sociais - UNIT, v. 5, n. 2, p. 145-158, 2019.

        DAVIS, A. Estarão as prisões obsoletas? Rio de Janeiro: Difel, 2018.

        DUARTE, E. C. P. Criminologia e racismo: introdução ao processo de recepção das teorias criminológicas no Brasil. Curitiba: Juruá, 2011.

        MELOSSI, D.; PAVARINI, M. Cárcere e fábrica: as origens do sistema penitenciário. Rio de Janeiro: Revan, 2017.

        MOREIRA, A. J. Pensando como um negro: ensaio de hermenêutica jurídica. São Paulo: Contracorrente, 2019.

        PIRES, T. R. Estruturas intocáveis: o racismo na formação e atualização do constitucionalismo brasileiro. Revista Direito e Práxis, v. 9, n. 4, p. 2574-2602, 2018.

        QUIJANO, A. Colonialidade do poder, eurocentrismo e América Latina. In: LANDER, E. (Org.). A colonialidade do saber. Buenos Aires: CLACSO, 2005. p. 107-126.

        RIBEIRO, C. dos S. Do direito fundamental ao trabalho, da remição e da possibilidade de remissão em execução penal. Revista Justiça do Direito, v. 27, n. 2, p. 331-353, 2013.

        RUSCHE, G.; KIRCHHEIMER, O. Punição e estrutura social. 2. ed. Rio de Janeiro: Revan, 2004.

        SCHWARCZ, L. M. Sobre o autoritarismo brasileiro. São Paulo: Companhia das Letras, 2019.

        SEN, A. Desenvolvimento como liberdade. São Paulo: Companhia das Letras, 2010.

        SUPERIOR TRIBUNAL DE JUSTIÇA. Habeas Corpus nº 346.850/SP. Rel. Min. Nefi Cordeiro. Brasília, 2016.

        WACQUANT, L. As prisões da miséria. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2001.

        Categorias

        Como Citar

        Remição sem Remuneração: Racismo Institucional e Trabalho Prisional no Maranhão (2022-2025). Revista ESASP - Revista Científica Virtual da Escola Superior de Advocacia da OAB/SP, São Paulo, v. 1, n. 51, p. e2026010, 2026. Disponível em: https://revista.esaoabsp.com/index.php/esa/article/view/218. Acesso em: 15 out. 2026.